
O Sabor Proibido da Lua Cheia
By Ana Vasconcelos
vampire · 2026-04-23
Lilith, a vampire queen in Nocturne, breaks the rules of the Coven by feeding on a mortal named Rafael, whose blood has an unusual effect on her. The Coven discovers her transgression and attacks her mansion, but her loyal servant Silas sacrifices himself to allow Lilith to escape and uncover the truth.
Capítulo 1
O Sabor Proibido da Lua Cheia
O sangue escorria quente entre meus dedos, tingindo de carmesim a seda pálida do meu vestido. Não era meu sangue, é claro. Jamais ousaria profanar meu próprio corpo daquela forma. Era o sangue dele, do mortal que ousara cruzar meu caminho sob a luz traiçoeira da lua cheia.
Meu nome é Lilith Vesper, e sou uma criatura da noite. Uma vampira, para ser exata, embora prefira o termo “filha da escuridão”. Resido em Nocturne, uma cidade envolta em eterna penumbra, um refúgio para aqueles que, como eu, prosperam na ausência de luz. Nocturne é um lugar de segredos sussurrados, de desejos obscuros e de poder corrompido. É o meu reino, e eu sou a sua rainha.
Esta noite, porém, o reino parecia mais uma jaula. A dança incessante da lua cheia me deixava inquieta, um fogo frio queimando em minhas veias. Precisava de algo para aplacar essa sede, algo mais do que o vinho de sangue que normalmente me satisfazia.
Foi então que o vi. Um mortal, jovem e incauto, perdido nas vielas escuras do distrito de Velórios. Seus olhos, cor de mel sob a luz fraca dos lampiões a gás, brilhavam com um medo delicioso. Seu cheiro… ah, seu cheiro! Doce, embriagador, como o néctar das rosas negras que florescem apenas nos jardins proibidos. Um aroma que prometia prazer e perdição.
Ele se chamava Rafael. Um nome angelical, ironicamente inadequado para o destino que eu havia reservado para ele. Tentei resistir. Juro que tentei. A Confraria, o conselho dos vampiros anciões que governa Nocturne, impõe regras estritas sobre a interação com os mortais. Não podemos nos alimentar livremente, não podemos revelar nossa verdadeira natureza, não podemos interferir em seus assuntos… pelo menos, não abertamente.
Mas Rafael… ele era diferente. Ele despertou algo em mim que eu acreditava estar morto há séculos. Uma curiosidade sombria, um desejo voraz que se estendia muito além da simples necessidade de sangue.
“Por favor…”, ele implorou, a voz embargada pelo terror, enquanto eu o prendia contra a parede úmida de um beco. “Quem é você? O que você quer?”
Sorri, um sorriso que prometia apenas dor. “Eu sou a sua salvação, Rafael. Ou talvez… a sua danação.”
Afundei minhas presas em seu pescoço, saboreando o choque em seu sistema enquanto o veneno, o beijo da morte, se espalhava por suas veias. Bebi com avidez, sentindo sua vida esvair-se a cada gole. Mas, desta vez, não me limitei a saciar minha sede. Eu queria mais. Queria sentir sua alma, sua essência, fundir-se à minha.
Quando finalmente o soltei, ele caiu ao chão como uma marionete cujas cordas foram cortadas. Seus olhos estavam vidrados, vazios, mas ainda havia um traço de… êxtase? Talvez, no fundo de sua alma mortal, ele tivesse desejado isso. Talvez ele soubesse, desde o início, que seu destino era se perder em mim.
Arrastei seu corpo para as sombras, escondendo-o da vista de olhares curiosos. A Confraria não podia saber o que eu havia feito. As consequências seriam severas. Mas, naquele momento, eu não me importava. A excitação da transgressão, o gosto do sangue proibido, eram mais importantes do que qualquer lei ou punição.
Voltei para minha mansão, a Mansão Vesper, um imponente edifício gótico que se erguia sobre Nocturne como um monumento à minha solidão. Entrei na biblioteca, um santuário de livros antigos e segredos obscuros. Caminhei até a janela, observando a cidade adormecida sob a luz da lua cheia. A culpa, por um breve instante, me assaltou. Mas foi rapidamente abafada pela onda de poder que agora pulsava em minhas veias. O sangue de Rafael havia me transformado. Ele havia despertado algo adormecido. Algo perigoso.
De repente, um som interrompeu meus pensamentos. Um arranhão suave na porta. Franzi a testa. Quem ousaria me perturbar a essa hora da noite?
“Entre”, ordenei, a voz carregada de impaciência.
A porta se abriu lentamente, revelando uma figura esguia envolta em um manto negro. Era Silas, meu servo mais leal e também… meu confidente. Seus olhos, normalmente calmos e reservados, brilhavam com uma preocupação palpável.
“Lilith”, ele disse, a voz um sussurro rouco. “Temos um problema.”
“Que tipo de problema, Silas?”, perguntei, o pressentimento crescendo em meu peito.
Ele hesitou por um momento, como se estivesse ponderando suas palavras. “A Confraria… eles sabem. Eles sabem sobre o mortal.”
Meu coração gelou. Como eles poderiam saber? Eu havia sido tão cuidadosa. Tão meticulosa.
“Como?”, sibilei, a voz carregada de raiva.
“Um informante”, respondeu Silas. “Um traidor em nossas fileiras. E não é só isso… eles estão vindo te buscar.”
Antes que eu pudesse responder, um estrondo violento sacudiu a mansão. As paredes tremeram, os lustres balançaram e o vidro das janelas estilhaçou-se em mil pedaços.
“É tarde demais”, disse Silas, os olhos arregalados de terror. “Eles já chegaram.”
Naquele instante, a porta da biblioteca foi arrombada, e três figuras encapuzadas invadiram o cômodo. Seus rostos estavam ocultos nas sombras de seus capuzes, mas eu podia sentir seus olhares frios e acusadores fixos em mim.
“Lilith Vesper”, disse um deles, a voz grave e imponente. “Você está presa por violar as leis da Confraria. Você será levada para o Conselho para ser julgada.”
Um sorriso cruel curvou meus lábios. Eles achavam que poderiam me deter? Eles achavam que poderiam me julgar?
“Eu sou Lilith Vesper”, declarei, a voz ecoando pela biblioteca. “E eu não me curvo a ninguém.”
Com um movimento rápido, invoquei as sombras ao meu redor, envolvendo-me em uma escuridão impenetrável. Os membros da Confraria cambalearam para trás, surpresos e desorientados. Usei a confusão a meu favor, lançando-me contra eles com a fúria de uma tempestade.
A batalha foi breve e brutal. Apesar de sua força e treinamento, os membros da Confraria eram páreo para o poder que agora fluía em minhas veias. Derrubei dois deles com facilidade, seus corpos caindo ao chão como bonecos de pano. O terceiro, porém, era diferente. Ele era mais forte, mais rápido, mais experiente. Ele bloqueou meus ataques com precisão implacável, seus olhos brilhando com uma determinação fanática.
“Você não pode escapar, Lilith”, ele disse, a voz fria e implacável. “A Confraria sempre prevalece.”
Ele ergueu uma estaca de madeira prateada, a ponta afiada apontada diretamente para o meu coração.
Eu sabia que estava em apuros. Se aquela estaca me atingisse, seria o fim. Mas eu não estava disposta a desistir. Não sem lutar. Não sem descobrir quem havia me traído. E, acima de tudo, não sem descobrir… o que havia de tão especial em Rafael.
De repente, um grito agudo cortou o ar. Uma figura surgiu das sombras, lançando-se sobre o membro da Confraria que me ameaçava. Era Silas. Ele havia se jogado na frente da estaca, protegendo-me com seu próprio corpo.
A estaca penetrou em seu peito, e um gemido de dor escapou de seus lábios. Ele cambaleou para trás, os olhos fixos em mim com uma mistura de dor e devoção.
“Fuja, Lilith”, ele sussurrou, a voz fraca. “Fuja… e descubra a verdade.”
Com um último suspiro, ele caiu ao chão, morto. A estaca prateada fincada em seu coração era uma acusação silenciosa.
A raiva me consumiu. Uma raiva tão intensa que obscureceu tudo ao meu redor. Os membros da Confraria pagariam por isso. Todos eles.
Mas, naquele momento, eu sabia que não podia ficar. Tinha que escapar. Tinha que descobrir quem havia me traído e por quê. E tinha que descobrir… o que havia de tão especial em Rafael que havia provocado tudo isso.
Sem olhar para trás, saltei pela janela estilhaçada, mergulhando na escuridão da noite. Nocturne era meu reino, mas agora… era também a minha prisão. E eu estava determinada a escapar, não importa o custo.