O Contrato Entre Rosas

O Contrato Entre Rosas

By Letícia Almeida

romance · 2026-04-23

Isadora de Moraes discovers she is to be married off to Rafael Alcântara to save her family from financial ruin. Her grandmother advises her to search for a specific book in the Alcântara library, promising it holds the key to her freedom. Isadora finds the book, but Rafael catches her in the act.

Capítulo 1

O Contrato Entre Rosas

O envelope de veludo carmesim parecia queimar em minhas mãos. O brasão da família Alcântara, gravado em ouro reluzente, era um presságio de desgraça. Eu sabia o que estava dentro, antes mesmo de romper o selo: meu futuro, meticulosamente planejado e selado, sem a minha permissão.

Meu nome é Isadora de Moraes, e a tradição, em minha família, pesa mais do que diamantes. Somos os Moraes, herdeiros de um império cafeeiro que se estende pelas montanhas de Minas Gerais. Riqueza, poder, e uma reputação impecável são os pilares da nossa existência. Mas, ultimamente, esses pilares estavam começando a rachar.

A dívida. Essa palavra sussurrada nos corredores da nossa casa, a razão por trás das olheiras profundas no rosto do meu pai, a sombra que pairava sobre cada sorriso. A fazenda, outrora próspera, cambaleava à beira da falência, e a única salvação residia em um casamento.

Alcântaras. Seus vinhedos em Mendoza eram lendários, seu poder financeiro, inquestionável. E o herdeiro, Rafael Alcântara, necessitava de uma esposa. Um acordo mutuamente benéfico, como meu pai gostava de enfatizar, com um brilho desesperado nos olhos. Eu seria a moeda de troca, a ponte entre dois impérios, sacrificada no altar da conveniência.

Rasguei o envelope. A caligrafia elegante e formal do meu pai dançava diante dos meus olhos, palavras cuidadosamente escolhidas para disfarçar a crueldade da situação. O jantar. Amanhã à noite. A apresentação oficial. O início do meu cativeiro dourado.

Deixei a carta escorregar pelos meus dedos, sentindo o peso da realidade me esmagar. Olhei para o espelho, encarando a imagem de uma jovem de vinte e dois anos, com sonhos desfeitos e um futuro roubado. Meus cabelos castanhos, geralmente soltos e rebeldes, pareciam sem vida, e meus olhos verdes, antes vibrantes, agora refletiam apenas resignação.

“Isadora?” A voz suave da minha avó ecoou do corredor. Dona Helena, a matriarca da família, uma mulher de força e sabedoria, era a única que parecia entender a minha dor.

“Entre, Vó.”

Ela entrou no quarto, sua presença imponente preenchendo o espaço. Seus cabelos brancos, impecavelmente arrumados, emolduravam um rosto marcado pelas linhas do tempo, mas seus olhos azuis ainda brilhavam com uma intensidade surpreendente.

“Eu sei o que está acontecendo, minha querida,” disse ela, aproximando-se e pegando minha mão. Suas mãos, enrugadas e frias, transmitiam uma sensação de conforto inexplicável.

“Não há nada que eu possa fazer, Vó. Meu destino está selado.” As palavras saíram como um sussurro rouco.

“Destino,” ela repetiu, com um tom de desdém. “Destino é uma palavra que os fracos usam para justificar suas escolhas. Você é uma Moraes, Isadora. Você tem o sangue da coragem correndo em suas veias. Não se renda sem lutar.”

As palavras da minha avó me atingiram como um choque de realidade. Ela estava certa. Eu não podia simplesmente aceitar esse destino imposto. Precisava lutar, encontrar uma maneira de escapar dessa armadilha. Mas como?

“O que você sugere, Vó?” perguntei, com uma faísca de esperança reacendendo em meu peito.

Ela sorriu, um sorriso enigmático que me deixou intrigada. “Eu tenho um plano, Isadora. Um plano que pode mudar tudo. Mas você precisa confiar em mim.”

Ela se aproximou, sua voz agora um sussurro conspiratório. “Amanhã à noite, durante o jantar, finja aceitar o acordo. Seja charmosa, educada, a noiva perfeita. Mas, quando tiver a oportunidade, procure por um livro específico na biblioteca dos Alcântara. Um livro com uma capa de couro verde musgo, sem título aparente. Ele contém informações… valiosas.”

“Informações sobre o quê?”

“Informações que podem te libertar, minha querida. Mas seja discreta. Ninguém pode saber que você está procurando por ele.”

Eu a encarei, confusa e apreensiva. O que minha avó estava tramando? E que segredos obscuros se escondiam na biblioteca dos Alcântara?

Na manhã seguinte, a mansão estava um caos. Criados corriam de um lado para o outro, preparando tudo para o jantar fatídico. Minha mãe, radiante e insuportavelmente otimista, supervisionava cada detalhe, desde a disposição dos talheres até o arranjo das flores.

Eu me sentia como uma boneca de porcelana, sendo vestida e maquiada para um espetáculo que não me pertencia. Um vestido de seda cor de vinho, escolhido a dedo pela minha mãe, abraçava minhas curvas de forma desconfortável. A maquiagem, cuidadosamente aplicada, disfarçava meu cansaço e ansiedade, mas não conseguia apagar a tristeza em meus olhos.

Quando finalmente me vi refletida no espelho, mal me reconheci. A jovem rebelde e sonhadora havia desaparecido, substituída por uma versão polida e domesticada de mim mesma. Uma noiva em cativeiro, pronta para ser entregue ao seu algoz.

Respirei fundo, tentando controlar o pânico que ameaçava me dominar. Lembrei-me das palavras da minha avó. Confie. Lute. Encontre o livro. Era a minha única esperança.

Enquanto descia as escadas, sentindo o peso do olhar de todos sobre mim, visualizei a biblioteca dos Alcântara. Um labirinto de livros antigos e segredos obscuros. E, em algum lugar ali, escondido entre as páginas amareladas, estava a chave para a minha liberdade.

O jantar transcorreu como um pesadelo surreal. Rafael Alcântara, um homem de beleza fria e calculista, sentou-se ao meu lado, proferindo elogios vazios e sorrisos forçados. Seus olhos escuros me analisavam com uma intensidade perturbadora, como se eu fosse um objeto a ser avaliado.

Meus pais, radiantes e aliviados, faziam o possível para manter a conversa animada, ignorando a tensão palpável que pairava sobre a mesa. Eu, por outro lado, interpretava meu papel com perfeição, sorrindo e acenando com a cabeça, enquanto planejava minha fuga.

Após o jantar, Rafael me ofereceu um tour pela mansão. Aceitei o convite, com um sorriso forçado, sabendo que aquela era a minha chance. A biblioteca era o meu objetivo, e eu não permitiria que nada me impedisse de alcançá-lo.

Enquanto caminhávamos pelos corredores opulentos, Rafael me contava sobre a história da família Alcântara, seus feitos e conquistas. Eu fingia prestar atenção, mas minha mente estava focada em encontrar uma brecha, um momento de distração que me permitisse escapar.

Finalmente, chegamos à biblioteca. A sala, imensa e silenciosa, era um santuário de conhecimento e mistério. Prateleiras repletas de livros se estendiam do chão ao teto, criando um labirinto de títulos e segredos.

“Impressionante, não é?” disse Rafael, com um sorriso de orgulho.

“Absolutamente,” respondi, tentando disfarçar minha ansiedade. “Eu adoraria dar uma olhada mais de perto.”

Rafael assentiu, permitindo que eu me movesse livremente pela sala. Comecei a percorrer as prateleiras, fingindo examinar os títulos, enquanto procurava desesperadamente pelo livro de capa verde musgo.

O tempo parecia se arrastar. Cada segundo era precioso, e eu sabia que Rafael poderia perder a paciência a qualquer momento.

Finalmente, em uma prateleira isolada, no canto mais escuro da sala, eu o vi. Um livro pequeno, de capa de couro verde musgo, sem título aparente. Meu coração disparou.

Estendi a mão para pegá-lo, mas, no mesmo instante, Rafael se aproximou, colocando a mão sobre a minha.

“Interessada neste?” perguntou ele, com um sorriso enigmático. “Este livro tem uma história… peculiar.”

Ele retirou o livro da prateleira, segurando-o em suas mãos. Nossos dedos se tocaram, e uma corrente elétrica percorreu meu corpo. Seus olhos escuros me encaravam com uma intensidade perturbadora. Ele sabia? Ele sabia o que eu estava procurando?

“Por que você queria este livro, Isadora?” perguntou ele, sua voz baixa e rouca. “Qual é o seu interesse em… segredos de família?”

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