
A Marca da Lua Crescente
By Maria Antunes
werewolf · 2026-04-23
Lúcia, uma ômega da alcateia da Lua Crescente, encontra um colar mágico que lhe confere poder. O Alfa Matias descobre e a persegue na floresta. Lúcia, encurralada, confronta o Alfa, insinuando que sabe o que ele quer, criando uma tensão inesperada.
Capítulo 1
A Marca da Lua Crescente
O cheiro a sangue e pinho pairava no ar gelado da floresta, impregnando cada fibra do meu ser. Corri, o coração a martelar contra as costelas, os pulmões a arder a cada inspiração. Atrás de mim, o uivo gutural ecoava, aproximando-se a cada segundo.
Eu era Lúcia, e até ontem, era apenas uma ômega da alcateia da Lua Crescente. Uma insignificância. Uma sombra. Mas ontem, tudo mudou. Ontem, encontrei algo que não devia.
A alcateia da Lua Crescente prosperava nas montanhas da Serra da Estrela, em Portugal. A nossa sociedade era hierárquica, rígida, governada pela lei do Alfa. A nossa vida era simples, dedicada à caça, à proteção do território e à obediência ao Alfa Matias, um lobo imponente e implacável, cujo poder se sentia em cada recanto da floresta. Os ômegas, como eu, éramos os mais baixos na hierarquia, responsáveis pelas tarefas mais humildes e desprovidos de qualquer poder.
A minha rotina era monótona: limpar o refeitório da alcateia, ajudar na cozinha, cuidar dos filhotes. Uma existência sem cor, sem esperança. Até ontem. Enquanto procurava ervas medicinais na orla da floresta, deparei-me com uma clareira escondida, um lugar de beleza sobrenatural, onde a luz do sol dançava entre as árvores.
No centro da clareira, envolto em raízes retorcidas de uma árvore ancestral, repousava um baú de madeira escura, adornado com símbolos estranhos. A curiosidade venceu o medo. Aproximei-me, as mãos trémulas, e abri o baú. Lá dentro, sobre um leito de veludo púrpura, jazia um colar. Não era um colar qualquer. A corrente era feita de prata envelhecida, e o pingente era uma pedra da lua, grande e cintilante, que irradiava uma luz suave e pulsante.
Assim que toquei no colar, uma onda de energia percorreu o meu corpo, queimando sob a minha pele. Uma voz sussurrou na minha mente, palavras antigas, promessas de poder e liberdade. Instintivamente, soube que aquele colar era perigoso, proibido. Um artefato da antiga linhagem, guardado em segredo, escondido do Alfa e da alcateia.
Voltei para a alcateia, escondendo o colar sob as minhas roupas. O medo era constante, paralisante. Sabia que se o Alfa descobrisse, a minha vida estaria em risco. Mas a energia do colar era viciante, a promessa de poder irresistível.
Durante o jantar, notei olhares estranhos sobre mim. O Alfa Matias parecia mais atento, mais observador. Senti-me exposta, vulnerável. Tentei agir normalmente, mas o meu coração batia descontroladamente.
Mais tarde, naquela noite, fui acordada por um som estranho. Um raspar na porta, um sussurro gutural. Levantei-me, trémula, e abri a porta. Lá estava ele. Um lobo enorme, de pelagem negra como a noite, olhos vermelhos incandescentes. Não era um lobo comum. Era o Alfa Matias, em sua forma lupina, e ele estava olhando diretamente para mim.
Ele rosnou, um som ameaçador que me paralisou de medo. Avançou, lento e implacável, até que o seu focinho tocou o meu pescoço. Senti o seu hálito quente na minha pele, o cheiro intenso de Alfa. E então, ele falou. Não com palavras, mas com a mente. *O colar. Sei que o tens.*
Corri. Corri pela minha vida, sabendo que o Alfa não me deixaria escapar. O colar queimava contra a minha pele, um peso insuportável. Tinha de me livrar dele. Tinha de sobreviver.
Mas agora, presa na floresta escura, sentindo o Alfa cada vez mais perto, sabia que o meu tempo estava a acabar. O que faria? Como escaparia? A marca da lua crescente no meu braço ardia, um lembrete constante da minha insignificância. Mas dentro de mim, uma nova chama começava a arder. Uma chama de desafio. Uma chama de esperança.
E então, tropecei. Caí sobre a neve, o ar a escapar dos meus pulmões. Olhei para cima e vi-o. O Alfa Matias, imponente e furioso, bloqueando o meu caminho. Ele estava pronto para me matar. Mas nos seus olhos, vi algo mais. Confusão. Curiosidade. E... desejo? Ele hesitou, apenas por um instante. Um instante que me deu uma ideia. Uma ideia desesperada, louca, mas talvez, a minha única chance de sobrevivência. Gritei, não de medo, mas de desafio. "Eu sei o que você quer!"