
O Bolo Envenenado da Dona Adelaide
By Júlia Faria
mystery · 2026-04-23
Dona Adelaide é encontrada morta em sua confeitaria, com um bolo envenenado ao lado. Aurora, sua rival, é a principal suspeita. Aurora encontra um cartão de visitas de um escritório de advocacia escondido no local do crime, o que a leva a questionar o que Adelaide estava envolvida.
Capítulo 1
O Bolo Envenenado da Dona Adelaide
O aroma doce de canela e baunilha, que normalmente pairava na Rua das Cerejas, foi substituído pelo cheiro metálico e frio do medo. Dona Adelaide, a rainha dos doces do Vale das Flores, jazia inerte atrás do balcão de sua confeitaria, Adoçar e Amar. Um bolo de chocolate, ricamente decorado, repousava ao lado dela, como uma testemunha silenciosa.
Eu, Aurora Luz, sua concorrente declarada e proprietária da Aurora Delícias, fui a primeira a encontrá-la. Ou melhor, a segunda. A Sra. Gonçalves, a fofoqueira oficial da rua, já estava lá, espiando pela vitrine com os olhos arregalados, antes de sair correndo para chamar a polícia. Imaginei o estrago que ela faria com essa história.
“Aurora,” a voz rouca do Inspetor Vargas cortou o silêncio matinal. Seus olhos cansados, emoldurados por olheiras profundas, me analisavam com uma intensidade desconfortável. “Você foi a primeira a chegar?”
Engoli em seco, tentando ignorar o nó que se formava na minha garganta. Adoçar e Amar e Aurora Delícias eram separadas por apenas três lojas. Era natural que eu chegasse rápido. Mas a rivalidade entre mim e Adelaide era conhecida por todos. A polícia naturalmente suspeitaria de mim.
“Sim, Inspetor,” respondi, tentando manter a voz firme. “A Sra. Gonçalves já estava aqui, mas… mas ela não tocou em nada.”
Vargas assentiu, sem demonstrar qualquer emoção. Ele era um homem de poucas palavras, mas seus olhos observadores pareciam registrar cada detalhe. Ele se abaixou, examinando o corpo de Adelaide e o bolo com atenção.
“Causa da morte?” perguntei, embora soubesse que era cedo para qualquer conclusão.
“Ainda não sabemos. Mas parece… pacífico demais para um assalto,” Vargas respondeu, franzindo a testa. “E o bolo… parece delicioso demais para ser a causa.”
Delicioso demais? Era o bolo de chocolate com recheio de framboesa que Adelaide fazia para ocasiões especiais. Uma receita secreta que ela guardava a sete chaves. Eu mesma tentei reproduzir aquele recheio diversas vezes, sem sucesso. Adelaide sempre dizia, com um sorriso enigmático, que o segredo estava no amor.
“Ela tinha algum inimigo, Aurora?” Vargas perguntou, me tirando dos meus pensamentos.
Respirei fundo. “Adelaide era… uma figura. Competitiva, ambiciosa. Mas inimigos? Não sei dizer.” Mentira. Eu era a maior rival dela. E todos sabiam disso. Mas eu nunca faria mal a ela… pelo menos, não daquela forma.
O Inspetor Vargas se levantou, limpando as mãos nas calças. “Precisaremos conversar mais tarde, Aurora. Por favor, não saia do Vale das Flores.”
Assenti, sentindo o peso do olhar dele nas minhas costas enquanto ele se dirigia para fora da confeitaria. A Sra. Gonçalves, agora acompanhada por outras vizinhas curiosas, cochichava animadamente do outro lado da rua. O Vale das Flores, antes um paraíso de tranquilidade, agora fervilhava com o veneno da fofoca.
Olhei novamente para o bolo. A cobertura de chocolate brilhava sob a luz fraca da manhã. Era perfeito, impecável. Exatamente como Adelaide sempre fazia. Mas por que ela morreria comendo um de seus próprios bolos? E por que aquele bolo em específico?
Decidi me aproximar, ignorando a fita amarela que delimitava a área do crime. Precisava ver de perto. Precisava entender.
“Não toque em nada, Aurora!” Vargas gritou, voltando-se para mim com uma expressão furiosa. “Já disse que não pode ficar aqui!”
Ignorei-o. Meus olhos estavam fixos em um pequeno detalhe que antes havia passado despercebido. Uma pequena mancha avermelhada na cobertura do bolo, perto de onde Adelaide provavelmente havia dado a primeira mordida. Não era framboesa. Era… sangue.
E, bem ao lado do bolo, quase escondido sob o corpo de Adelaide, algo brilhou fracamente. Uma pequena tarjeta de visitas. Peguei-a rapidamente, escondendo-a na palma da mão antes que Vargas pudesse ver. Ele estava ocupado demais discutindo com a Sra. Gonçalves para notar minha ousadia.
A tarjeta era de um escritório de advocacia na capital. “Fonseca & Associados”. O que Adelaide, a doceira mais famosa do Vale das Flores, estaria fazendo com um escritório de advocacia? E por que ela escondia essa tarjeta em sua confeitaria, ao lado de um bolo envenenado? Precisava descobrir. E rápido. A minha reputação – e talvez a minha liberdade – dependiam disso.
Mais tarde, já na Aurora Delícias, com a porta fechada e a placa de “fechado” pendurada, examinei a tarjeta novamente. Fonseca & Associados… O nome não me era estranho. Tentei me lembrar de onde o conhecia. De repente, um flash de memória me atingiu. Um artigo de jornal antigo, sobre um caso de corrupção envolvendo políticos influentes. Fonseca… ele era o advogado de defesa.
O que Adelaide tinha a ver com tudo isso? E quem a queria morta a ponto de envenenar um de seus próprios bolos? A resposta, eu sabia, estava escondida em algum lugar do Vale das Flores, esperando para ser descoberta. E eu, Aurora Luz, estava determinada a encontrá-la. Mesmo que isso me custasse tudo. A rivalidade com Adelaide se foi, agora era sobre descobrir a verdade, para que a sua memória não fosse manchada injustamente.
Enquanto isso, na Rua das Cerejas, Sofia, a filha de Adelaide, chegava. Seus olhos, vermelhos e inchados de tanto chorar, fixaram-se na fita amarela que impedia a entrada na Adoçar e Amar. Ela cambaleou, amparada por um dos policiais, e sussurrou uma única palavra, carregada de dor e incredulidade:
“Impossível…”
E então, desmaiou.