Sob a Sombra da Jabuticabeira

Chapter 3 — O Cheiro de Terra Molhada

O ar pesado do casarão Sampaio parecia sufocar Natália. Cada viga de madeira antiga, cada móvel empoeirado, sussurrava histórias de sua família, de um legado que agora pendia de um fio fino e quebradiço. A fazenda. Sua terra. Seu sangue. E Rafael Vianna, o homem que ela jurara destruir, estava se recuperando. A notícia, entregue friamente pelo Dr. Alencar, ecoou nos corredores silenciosos como um trovão distante. Ele voltaria. E ela não seria mais uma noiva relutante, mas sim a sua principal adversária.

Natália caminhou até a janela mais alta do casarão, o vidro embaçado pelo tempo e pela umidade. Lá fora, o céu ameaçava chuva, um espelho da tempestade que se formava em sua alma. As plantações de café, um mar verde escuro que se estendia até onde a vista alcançava, eram sua única consolação. Elas não se importavam com negócios sujos ou casamentos forçados. Elas apenas cresciam, fortes e resilientes, alimentadas pela terra que um dia seria totalmente sua. A terra molhada pelo orvalho da manhã exalava um aroma forte, terroso, que sempre a acalmava. Mas hoje, o cheiro parecia mais um lembrete do que estava em jogo.

"Ele não vai me tirar nada", murmurou para si mesma, a voz rouca e firme. A imagem de Rafael, com seus olhos escuros e sorriso traiçoeiro, invadiu sua mente. Aquele sorriso que prometia tanto e entregava tão pouco. Aquele toque que, mesmo em seus pesadelos, a assombrava. A ideia do casamento, antes um pesadelo inevitável, agora parecia um golpe baixo, uma forma de ele reivindicar o que ela acabara de herdar. Não. Ela lutaria. Usaria cada centavo de sua recém-adquirida fortuna para esmagá-lo.

Três dias depois, o escritório de Ricardo Almeida era um santuário de ordem e profissionalismo, um contraste gritante com a desordem emocional que Natália sentia. Papéis organizados em pilhas impecáveis, um aroma sutil de couro e madeira nobre, e o homem em si, com sua postura elegante e olhar penetrante. Ele a ouvira atentamente, cada palavra de sua raiva e determinação. Ricardo não era como os advogados que ela conhecia; havia uma calma calculista em seus olhos que a tranquilizava e a aterrorizava ao mesmo tempo.

"Senhorita Sampaio," começou Ricardo, a voz grave e ponderada, "as táticas de Vianna são conhecidas por sua brutalidade. Ele não hesita em usar todos os meios, legais ou não, para atingir seus objetivos. A recuperação dele é um ponto crucial. Se ele voltar antes de termos nossos argumentos solidificados, a posição dele será mais forte."

Natália cerrou os punhos. "Eu não me importo com a força dele. Quero a força da lei. Quero cada centavo que ele tirou da minha família de volta. Quero provar que ele não é invencível."

"Compreendo seu ímpeto, mas a vingança cega é um luxo que não podemos nos dar agora. Precisamos de estratégia. Preciso de todos os documentos financeiros da fazenda, todos os contratos que sua família assinou com Vianna ou suas empresas nos últimos anos. Quanto mais informação tivermos, mais rápido poderemos montar uma defesa sólida e, quem sabe, um ataque."

Enquanto Ricardo falava, Natália sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela se lembrou de uma caixa antiga no sótão, repleta de papéis velhos e esquecidos. Algo que sua mãe sempre insistiu em guardar, mas que ela nunca se deu ao trabalho de examinar. Documentos… contratos… seriam eles a chave? A esperança, uma semente minúscula, começou a germinar em seu peito. Talvez houvesse uma brecha, uma fraqueza escondida nas teias de aranha de Vianna.

Ao sair do escritório de Ricardo, o sol já se punha, pintando o céu com tons de laranja e roxo. A cidade pulsava com uma vida que parecia alheia à batalha que se desenrolava em sua vida. Ela pegou seu carro, decidida. A fazenda. Ela precisava ir até a fazenda. A caixa. Precisava encontrar aquela caixa.

No hospital, Rafael Vianna abriu os olhos. O quarto estava escuro, apenas a luz fraca do corredor iluminava o ambiente. Sua cabeça latejava, mas sua mente estava clara, focada. A notícia da recuperação ter sido mais rápida do que o esperado o surpreendeu. Mas a informação mais intrigante veio através de seus contatos: Natália Sampaio não estava se escondendo. Ela estava contratando um advogado. Um advogado de peso. A garota estava lutando. Um sorriso lento se espalhou por seus lábios, um sorriso perigoso. A guerra, ele percebeu, estava apenas começando. E ele não pretendia perder. Ele pegou o telefone ao lado da cama, discando um número familiar. "Alencar? É Rafael. Preciso que você me traga todos os detalhes da recuperação da Natália. E quero saber quem é esse advogado que ela contratou. Quero saber tudo."

De volta ao casarão Sampaio, Natália subiu as escadas rangentes para o sótão. O cheiro de mofo e poeira a envolveu. Com uma lanterna na mão, ela começou a procurar. Caixas empilhadas, móveis cobertos por lençóis brancos fantasmagóricos. Finalmente, em um canto escuro, ela a encontrou. Uma caixa de madeira escura, entalhada com as iniciais "S.S.". Sua mãe. Com as mãos trêmulas, ela a abriu. Dentro, não eram apenas papéis velhos. Havia cartas, um diário e um contrato. Um contrato que parecia significar algo… algo que sua mãe mantinha em segredo. Enquanto Natália folheava as páginas amareladas, seus olhos pousaram em uma frase específica, escrita com uma caligrafia elegante, mas urgente:

"Ele não é quem diz ser. Confie em mim."