Nó de Cetim e Cinzas

Chapter 3 — O Legado Sussurrado nas Sombras

A porta maciça da mansão Ferreira rangeu ao se abrir, revelando não apenas a figura tensa de Antônio Ferreira, mas também a presença imponente de dois homens desconhecidos. Seus rostos eram máscaras de indiferença calculada, e seus ternos escuros pareciam absorver a pouca luz que ousava penetrar no hall de entrada outrora grandioso. Olívia sentiu um arrepio percorrer sua espinha, uma premonição sombria que nada tinha a ver com a iminente cerimônia de casamento e tudo a ver com a aura gélida que emanava dos recém-chegados.

“Pai? Quem são eles?”, a voz de Olívia soou mais firme do que ela esperava, a adrenalina inundando seu sistema. Ela deu um passo à frente, posicionando-se instintivamente entre os homens e a fragilidade aparente de seu pai.

Antônio Ferreira engoliu em seco, seus olhos desviando dos de Olívia para os dos homens, um misto de medo e subserviência pintado em seu rosto. “Eles... eles são associados do Sr. Reis, Olívia. Vieram tratar de alguns assuntos urgentes.”

A palavra 'Reis' pairou no ar como uma nuvem de tempestade. Luciano. A mensagem que ela enviou. Seria isso uma resposta direta? Ou uma coincidência sinistra? A frieza no olhar de Luciano, a menção a um segredo no dia do casamento... tudo começou a se encaixar de uma forma perturbadora.

Um dos homens, o mais alto, com uma cicatriz fina cruzando sua sobrancelha esquerda, deu um passo à frente. Sua voz era grave e desprovida de emoção. “Sr. Ferreira nos informou sobre a delicada situação financeira. Viemos oferecer uma solução... e garantir que certos acordos sejam cumpridos.”

Olívia apertou os punhos. Solução? Acordos? Ela sabia que o casamento arranjado era parte da solução, mas a presença desses homens sugeria algo mais sombrio, mais coercitivo. O diário de seu avô ecoou em sua mente: um pacto antigo, um legado valioso, uma promessa obscura.

“Que acordos?”, Olívia perguntou diretamente ao homem, ignorando a tentativa de seu pai de acalmá-la com um olhar suplicante. Ela precisava entender a extensão da teia em que sua família estava presa.

O segundo homem, mais corpulento, com mãos que pareciam capazes de esmagar aço, sorriu levemente, um brilho cruel em seus olhos. “O acordo feito pelo seu avô, Srta. Ferreira. Aquele que garante o futuro da sua família... e a nossa prosperidade.”

O nome do avô. O pacto. O legado. Cada peça se encaixava com uma precisão assustadora. O que Alberto Ferreira havia prometido aos Reis? E que preço sua família estava pagando agora por essa promessa?

“Não sei do que vocês estão falando”, Olívia mentiu, sua voz soando mais confiante do que se sentia. Ela precisava de tempo. Tempo para ler o diário completo, para entender a natureza exata do 'legado' e da 'maldição' que Sofia havia mencionado. Tempo para talvez encontrar uma brecha, uma saída.

O homem com a cicatriz inclinou a cabeça. “Oh, mas sabe. Ou logo saberá. O Sr. Luciano Reis é muito... particular sobre o cumprimento de suas obrigações. E das obrigações alheias.” Ele fez uma pausa, seus olhos fixando-se nos de Olívia com uma intensidade que a fez recuar um passo. “Ele está ansioso para o casamento. E para receber o que lhe é devido.”

Antônio parecia prestes a desmaiar. “Por favor, senhores, minha filha está abalada. Podemos discutir isso em outro momento?”

“O momento é agora, Sr. Ferreira”, disse o homem corpulento, sua voz um rosnado baixo. “Viemos para garantir que não haja desvios. O Sr. Reis não tolera surpresas.”

De repente, o som de um carro freando bruscamente na entrada da mansão quebrou a tensão. As luzes dos faróis varreram o hall, iluminando por um instante os rostos tensos de Olívia e seu pai, e os olhares impassíveis dos homens de Reis. A porta principal se abriu com força renovada, e uma figura alta e elegante surgiu na soleira, banhada pela luz fria da noite.

Luciano Reis. Ele estava ali. Seus olhos escuros percorreram a cena com uma calma calculista, demorando-se por um instante a mais em Olívia, antes de pousar em seu pai e, finalmente, nos dois homens que agora pareciam ainda mais ameaçadores sob seu olhar penetrante.

Um sorriso lento e perigoso se espalhou pelos lábios de Luciano. “Parece que cheguei bem a tempo de participar da discussão sobre o meu futuro... e o futuro dos Ferreira.” Ele deu um passo para dentro, o som de seus sapatos de couro ecoando no silêncio expectante. “E parece que meus associados já começaram a apresentar as minhas credenciais, pai. Que eficiência.”

Olívia olhou de Luciano para os homens, depois para seu pai, sentindo o chão sumir sob seus pés. O jogo havia mudado, e ela não tinha ideia das regras, apenas que estava presa no centro de um tabuleiro perigoso, orquestrado por homens com segredos tão antigos quanto as sombras que agora envolviam a mansão Ferreira.