Sangue e Seda na Rocinha
Chapter 3 — O Sussurro da Maré Salgada
O cano frio do revólver pressionava a têmpora de Lívia, um toque gélido que fez seu corpo inteiro tremer. O cheiro acre de pólvora misturava-se ao aroma salgado do mar, criando uma atmosfera sufocante. Seus olhos, arregalados de pânico, fixaram-se no rosto sombrio do homem à sua frente. Ele era uma figura imponente, vestindo roupas escuras que se camuflavam com a noite, a luz fraca da lua mal revelando seus traços,
"Quem é você? O que quer?" A voz de Lívia saiu embargada, um fio de desespero que se perdia no uivo do vento.
O homem não respondeu imediatamente. Seus olhos percorreram a praia, como se buscasse sinais de outros. Finalmente, sua atenção voltou para ela. Havia uma intensidade fria em seu olhar, um cálculo que Lívia não conseguia decifrar.
"Você não deveria estar aqui", ele disse, a voz grave e rouca, como cascalho raspando em rocha. "Este lugar não é seguro para você."
Lívia engoliu em seco, o medo dando lugar a uma faísca de raiva. "E quem é você para decidir onde posso ou não estar? Um capanga de Henrique?" Ela tentou soar mais firme do que se sentia, a necessidade de autonomia lutando contra o terror.
Um leve sorriso irônico brincou nos lábios do desconhecido. "Henrique Vianna? Não, senhorita. Não sou capanga de ninguém. Sou alguém que se importa com o que acontece nesta costa."
"Se importa?" Lívia riu sem humor. "Então por que está com uma arma apontada para mim? Veio me matar a mando dele?"
O homem abaixou ligeiramente o cano da arma, mas não o guardou. Seus olhos a estudavam com uma curiosidade que a deixava desconfortável. "Você é Lívia Cunha, não é? A esposa de Giovanni."
O nome de Giovanni, sussurrado por aquele estranho, atingiu Lívia como um soco. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela as deteve. "O que você sabe sobre Giovanni? Ele está vivo? Você o conhece?"
"Sei que ele está em perigo, assim como você", respondeu o homem, evasivo. "E sei que você está presa aqui, em Angra dos Reis, sob o domínio do irmão dele. Um lugar onde o mar traz tanto perigo quanto esperança."
Esperança. A palavra ecoou na mente de Lívia. Aquele sinal luminoso, aquela aproximação cautelosa na praia… seria ele uma esperança? "Você veio me ajudar? A me tirar daqui?"
Ele hesitou por um momento, o silêncio tenso quebrado apenas pelo som das ondas quebrando na areia. "Eu posso te ajudar, Lívia. Mas você precisa ser honesta comigo. O que você estava fazendo aqui, esperando por um sinal?"
Lívia sentiu um nó na garganta. Confiar em um estranho armado era loucura, mas a alternativa era permanecer prisioneira de Henrique. "Eu… eu vi um sinal vindo do mar. Achei que fosse alguém vindo me buscar. Achei que fosse Giovanni."
O homem observou-a atentamente, sua expressão indecifrável. "Giovanni está vivo. E ele não esqueceu você. Mas Henrique é perigoso. Ele tem olhos e ouvidos por toda parte, mesmo neste paraíso isolado. Você precisa ser muito, muito cuidadosa."
Um arrepio percorreu a espinha de Lívia. Henrique era um predador, e ela, sua presa. "E como você sabe de tudo isso? Quem é você?"
"Meu nome não importa agora", disse ele, dando um passo para trás. A maré estava subindo, lambendo a areia a seus pés. "O que importa é que você precisa voltar para a mansão antes que notem sua ausência. Não se preocupe, eu estarei observando. E quando for a hora certa, avisarei você. Ou melhor, Giovanni avisará."
"Giovanni? Ele está aqui? Perto?" Lívia deu um passo à frente, desesperada por mais informações, mas o homem se afastou rapidamente, desaparecendo nas sombras entre as árvores que margeavam a praia. Ela tentou segui-lo, mas ele era rápido e conhecia o terreno. Em poucos segundos, ele se foi, deixando-a sozinha com o som do mar e o coração acelerado.
De volta ao quarto luxuoso, Lívia tentou organizar os pensamentos. Giovanni estava vivo. Ele não a tinha abandonado. Havia esperança. Mas quem era aquele homem? Um aliado de Giovanni? Ou alguém com seus próprios planos obscuros? E aquele aviso sobre Henrique… ela já sabia o quão perigoso ele era. A cada dia que passava, a teia de mentiras e ameaças se apertava em torno dela.
Na manhã seguinte, o sol nasceu radiante sobre Angra dos Reis, mas para Lívia, a beleza era uma cortina fina sobre a escuridão que a cercava. Ela tentou agir normalmente durante o café da manhã, respondendo às perguntas monótonas de Henrique com um aceno de cabeça ou um murmúrio. Ele parecia satisfeito, observando-a com seus olhos frios e calculistas, como se saboreasse a submissão dela.
"Você parece um pouco pálida hoje, querida", disse Henrique, seu tom casual escondendo uma ameaça subjacente. "Teve dificuldades para dormir? Talvez devêssemos acelerar o processo de… nos conhecermos melhor. Tornar esta casa mais um lar para você."
Lívia sentiu um calafrio. A ideia de 'conhecer melhor' Henrique era aterradora. Ela desviou o olhar, focando-se em seu prato, fingindo interesse na comida. "Estou bem, Henrique. Apenas… o ambiente novo. Preciso de um tempo para me acostumar."
Ele riu, um som seco e sem alegria. "Oh, você se acostumará. Todos se acostumam com o poder, Lívia. Especialmente quando ele é apresentado da maneira certa."
Mais tarde naquele dia, enquanto Lívia vagava sem rumo pelos jardins da mansão, tentando encontrar um momento de paz longe dos olhos vigilantes de Henrique e seus capangas, um dos criados se aproximou dela. Era um homem mais velho, com rugas profundas no rosto e um olhar cansado. Ele carregava uma bandeja com uma única taça de vinho.
"Senhora", ele disse, curvando-se levemente. "O senhor Henrique mandou trazer isto para a senhora. Para relaxar."
Lívia pegou a taça, desconfiada. O vinho parecia normal, um tinto encorpado, mas o gesto de Henrique era incomum. Ele raramente era gentil sem um motivo oculto. Ela olhou para o criado, buscando algum sinal, alguma pista em seus olhos.
"Obrigada", ela disse, a voz baixa. O criado assentiu e se afastou, sem dizer mais nada. Lívia virou a taça em suas mãos, o líquido escuro refletindo a luz do sol. Ela pensou no homem na praia, em suas palavras. "Giovanni está vivo." Aquilo era tudo que importava no momento. Ela precisava sobreviver para ele.
Com um suspiro, ela levou a taça aos lábios e tomou um gole do vinho. O sabor era rico e complexo, com notas de frutas vermelhas e especiarias. Mas, por baixo de tudo, havia algo mais. Um amargor sutil, quase imperceptível, que a fez franzir a testa. Ela tomou outro gole, tentando identificar a sensação. Seria apenas o vinho? Ou algo mais?
De repente, uma tontura tomou conta dela. A visão começou a embaçar nas bordas, e seus joelhos cederam. Ela cambaleou, a taça escorregando de seus dedos e caindo no chão de pedra com um estrondo, o vinho espalhando-se como sangue. O mundo girou. A última coisa que Lívia viu antes de seus olhos se fecharem foi o reflexo do céu azul no líquido derramado, um vislumbre de liberdade que se tornava cada vez mais distante.