Véu de Sangue e Seda
Chapter 3 — O Espelho Quebrado
A respiração de Fernanda ficou suspensa no ar frio do quarto luxuoso. As palavras de Davi pairavam entre eles, pesadas e acusadoras. “O que você encontrou, Fernanda?”
Ela olhou para o rosto dele, a máscara de indiferença que ele usava antes agora rachada, revelando um vislumbre de algo perigoso. A foto parecia queimar em sua mão, a imagem impressa em sua mente: Davi, sorrindo, abraçado a uma mulher loira com um vestido de noiva idêntico ao seu, em um cenário que ela não reconhecia. O contraste entre a felicidade estampada no rosto dele e o terror que a invadia era gritante.
“Eu… eu não sei do que você está falando”, gaguejou Fernanda, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela tentou esconder a foto atrás das costas, mas o movimento foi desajeitado, quase infantil. O pânico começou a se instalar, nublando seus pensamentos.
Davi deu um passo à frente, seus olhos escuros fixos nos dela. O silêncio se esticou, tenso, até que ele falou novamente, a voz baixa, mas penetrante. “Não minta para mim, Fernanda. Eu vi o seu rosto quando abriu aquele envelope. Aquele vestido foi feito sob medida. Pouquíssimas pessoas viram os detalhes, e definitivamente não era para ser uma surpresa para você.”
Ele sabia. Como ele sabia? O pânico deu lugar a uma onda de adrenalina. O contrato, a ruína de sua família, a foto… tudo parecia convergir para um labirinto sem saída. Ela não podia revelar a foto. Se Davi descobrisse que ela sabia sobre a outra mulher, ele poderia simplesmente anular o contrato, e sua família estaria perdida.
“Era apenas… um pedaço de papel. Um erro de costura, talvez”, ela improvisou, forçando um sorriso trêmulo. “Não é nada.”
Davi arqueou uma sobrancelha, uma pitada de escárnio em seus lábios. Ele estendeu a mão, não para pegá-la, mas para indicar o pequeno broche de prata em forma de rosa que ela usava na lapela do robe de seda. “Esse broche. Sua mãe me disse que sua avó o usava. E que ela o deu a você antes de… bem, antes de tudo.”
Fernanda instintivamente levou a mão ao broche. Ele estava ali, frio contra sua pele. Sua avó. Uma lembrança preciosa, uma ligação com um passado mais simples e feliz. Por que ele mencionava isso?
“É apenas um enfeite”, ela respondeu, a voz um pouco mais firme agora. Ela precisava recuperar o controle.
“Eu sei que é”, Davi disse, e pela primeira vez, um leve sorriso cruzou seu rosto, um sorriso que não alcançou seus olhos. “Assim como a foto era apenas um pedaço de papel, certo?”
Ele se aproximou mais, o espaço entre eles diminuindo perigosamente. O perfume amadeirado dele a envolveu, um aroma sedutor e opressor. Ela podia sentir o calor que emanava dele, podia ver a intensidade em seus olhos. Era como estar à beira de um precipício.
“Você não vai me dizer o que viu, não é?”, ele sussurrou, a voz rouca. “Você acha que pode me ameaçar com um segredo que nem sequer entende.”
Fernanda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele estava jogando com ela, testando-a. Mas ela se recusava a ceder. Ela tinha que proteger sua família. Ela tinha que ser forte.
“Eu não estou ameaçando ninguém, Sr. Gomes”, ela disse, erguendo o queixo com uma coragem recém-encontrada. “Estou apenas tentando entender os termos do nosso acordo. E talvez… descobrir quem é a outra mulher no meu vestido de noiva.”
Os olhos de Davi se estreitaram, um brilho perigoso neles. Ele não respondeu, mas o silêncio dele era mais eloquente do que qualquer palavra. Ele a observou por mais um momento, como se estivesse catalogando cada reação dela. Então, com um movimento rápido, ele pegou o envelope de dentro da mão dela. A foto caiu no chão, um pequeno quadrado de papel branco com uma imagem escura.
Davi a pegou, seus dedos roçando brevemente os de Fernanda. Um choque elétrico percorreu ambos. Ele olhou para a foto, depois para ela, um enigma em seu rosto. O silêncio voltou a reinar, mais pesado desta vez, carregado com a tensão não resolvida.
De repente, um barulho alto vindo do lado de fora do quarto fez ambos se sobressaltarem. Um grito, seguido por um estrondo metálico. Parecia que algo pesado havia caído no corredor. Fernanda e Davi trocaram um olhar de apreensão.
“O que foi isso?”, Fernanda perguntou, a voz um fio.
Davi não respondeu. Ele se moveu rapidamente em direção à porta, os olhos focados em um ponto invisível no corredor. Ele a puxou para trás de si, protegendo-a instintivamente. Os sons do lado de fora se intensificaram. O rangido de portas se abrindo e fechando, passos apressados.
Fernanda sentiu um aperto no peito. Aquilo não era mais apenas o mistério da foto. Havia algo mais acontecendo, algo perigoso. Ela agarrou o braço de Davi, os olhos fixos na porta entreaberta, onde as sombras dançavam.
“Davi…”, ela começou, mas foi interrompida por um vulto que passou rapidamente pela fresta da porta, uma figura sombria desaparecendo na escuridão do corredor. Em seguida, um som inconfundível de metal batendo contra metal, seguido por um baque surdo.