O Echo do Nosso Silêncio

Chapter 3 — O Eco de um Piano Quebrado

O ar na sala parecia ter ficado mais denso, quase irrespirável. Luísa encarava a caixa aberta em suas mãos, as fotos espalhadas pelo tapete persa como confetes de uma festa que nunca deveria ter acontecido. Rafael. E Danilo. Juntos. No que parecia ser um quarto de hospital. A imagem de seu marido, sorrindo de forma tão casual ao lado do homem que ela amara com a intensidade de uma força da natureza, era um golpe físico, um nó na garganta que a impedia de respirar.

O som fraco de um piano vindo do andar de cima quebrou o silêncio opressor. Um arrepio percorreu a espinha de Luísa. Era o piano de Rafael, raramente tocado, um resquício de uma paixão que ele parecia ter abandonado há muito tempo. Assim como ele parecia ter abandonado a ela.

Com as mãos trêmulas, Luísa pegou o celular. Discou o número de Juliana. "Ele está em São Paulo? Em que hospital?" A voz de Luísa saiu embargada, uma mistura de choque e uma raiva crescente. Juliana hesitou, mas a urgência na voz da amiga a fez ceder. "Hospital Sírio-Libanês, ala particular. Ele chegou há alguns dias, está muito fraco."

Luísa desligou, o coração martelando contra as costelas. O Sírio-Libanês. O mesmo hospital onde, pela aparência das fotos, Rafael estava visitando Danilo. A traição não era apenas a do passado de Danilo, mas a do presente, velada na mentira silenciosa de Rafael. Ou talvez, Luísa ponderou com um pavor crescente, Rafael soubesse de tudo. Sabia do seu amor por Danilo, e a aparição de Danilo em São Paulo era um jogo cruel orquestrado por ele.

Um estrondo vindo do andar de cima a fez pular. A música do piano cessara abruptamente, seguida por um silêncio ainda mais perturbador. Luísa correu escada acima, o medo apertando seu peito. A porta do escritório de Rafael estava entreaberta. Ela espiou. Rafael estava de pé, a mão pousada sobre o piano de cauda, o corpo tenso. Ele não a viu. Seus olhos estavam fixos em um ponto distante, e uma expressão de profunda dor, quase desespero, nublava seu rosto. Havia algo mais ali, algo que ia além de uma simples descoberta de fotos. A caixa. As fotos. Ele sabia. E a presença dele no hospital com Danilo não era uma coincidência.

Luísa deu um passo para trás, o som de um galho quebrando no jardim lá fora a fez se virar abruptamente. Uma silhueta se destacava contra a luz fraca da varanda. Não era Rafael. Era um homem alto, vestido de escuro, que observava a casa com uma intensidade perturbadora. Ele deu um passo à frente, e a luz da lua iluminou seu rosto. Era Danilo. Impossível. Como ele poderia estar ali? Ele estava doente, internado em um hospital.

O homem na varanda levantou a mão, como se fosse bater na porta. Luísa ficou paralisada, incapaz de se mover, incapaz de gritar. O homem que ela pensava estar morrendo em um hospital estava bem ali, na sua frente, a poucos metros de distância, observando sua casa. E antes que ela pudesse processar o que estava vendo, a porta da frente se abriu e Danilo entrou, o olhar fixo nela, um sorriso melancólico nos lábios.