Olhos que Mentem

Chapter 3 — O Sangue no Altar

O silêncio na nave da igreja era ensurdecedor. Cada respiração parecia ecoar no vazio, enquanto os olhos de Dante varriam a cena surreal à sua frente. Samuel, pálido como um fantasma, mantinha a mão sobre o peito, o choque mascarando a raiva crescente. Nayara, cujas mãos tremiam incontrolavelmente, olhava de um homem para o outro, um nó de desespero apertando sua garganta. Ulisses, ainda com a arma apontada, o suor escorrendo pela testa, parecia um animal encurralado, os olhos fixos em Nayara, implorando por uma reação.

“Ulisses, abaixe essa arma. Agora!”, a voz de Dante, embora controlada, reverberou com uma autoridade fria que cortou o ar. Ele deu um passo hesitante para a frente, os olhos em chamas para o filho mais novo.

Samuel finalmente encontrou sua voz, rouca de incredulidade. “Você… você ia atirar em mim? Por ela?” O sarcasmo em sua voz era cortante, mas a fragilidade por trás dele era evidente. Ele olhou para Nayara, a pergunta implícita pairando entre eles: *Por quê?*”

Nayara sentiu o chão sumir sob seus pés. Aquele momento que ela tanto temia, o confronto direto, estava acontecendo. A arma de Ulisses, o olhar de Samuel, a presença imponente de Dante… tudo convergiu para uma encruzilhada cruel. Ela precisava falar, precisava agir, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. As palavras de Dante, a dor nos olhos de Samuel, o amor desesperado nos de Ulisses – tudo se misturava em um turbilhão de culpa e medo.

“Eu não… eu não queria machucar ninguém”, Ulisses gaguejou, a voz embargada, a arma tremendo levemente. Ele olhou para Nayara, o desespero em seus olhos se transformando em uma súplica silenciosa. “Nayara, diga algo. Por favor.”

Dante bufou, um som de puro desprezo. “Dizer o quê, Ulisses? Que você é um covarde que arruinou a vida de todos nós? Que você ia matar seu próprio irmão por uma mulher que estava prestes a se casar com ele?”

As palavras atingiram Nayara como um golpe físico. Ela cambaleou para trás, a mão levando ao peito como se pudesse conter a dor que a rasgava. Samuel a segurou firme, seus olhos nunca deixando os de Ulisses, mas sua atenção era claramente dividida entre proteger Nayara e confrontar seu irmão. A arma ainda estava ali, um elo perigoso entre passado e futuro, entre o amor e a traição. O sangue, tanto figurativo quanto potencialmente real, parecia pulsar no altar.

De repente, Nayara se virou para Ulisses. Seus olhos encontraram os dele, e pela primeira vez naquela manhã caótica, ela tomou uma decisão. Uma decisão que selaria seu destino, mas que ela sentia ser a única saída, por mais dolorosa que fosse. Ela respirou fundo, o som agudo em meio ao silêncio tenso. “Ulisses… eu não te amo mais.” A mentira saiu de seus lábios, dura e fria como gelo, cortando o ar entre eles como a lâmina mais afiada. Os olhos de Ulisses se arregalaram em choque e descrença. Samuel olhou para Nayara, confuso, mas um vislumbre de alívio começou a substituir o pânico em seu rosto.