Herdeira do Asfalto
Chapter 3 — O Gosto Amargo do Vinho e da Vergonha
O tilintar dos talheres contra a porcelana fina era a trilha sonora da tensão que pairava no salão de festas da Mansão Bittencourt. Ingrid observava Renato do outro lado da mesa de jantar, seus olhos escuros como a noite capturando cada movimento dele. Ele falava com seu pai, a voz calma e controlada, um contraste gritante com a tempestade que se formava dentro dela. O sombor do champanhe que serviam era quase um insulto à sua realidade. Este era o palco para seu pequeno ato de vingança, o prelúdio para a guerra que ela pretendia travar contra esse casamento indesejado.
Ela esperou. Pacientemente. Cada sorriso forçado, cada palavra polida trocada entre os homens, era combustível para sua determinação. Seu olhar deslizou para a garrafa de vinho tinto que o garçom havia aberto momentos antes. Um Bordeaux clássico, caro. Perfeito. Ela sabia que Renato apreciaria a bebida, um detalhe que ela havia descoberto em uma pesquisa rápida e obsessiva nas últimas vinte e quatro horas. Algo tão sutil que ninguém mais notaria, mas que para ela seria a chave.
Renato se virou, seus olhos encontrando os dela. Um leve sorriso brincou em seus lábios. "Parece que você encontrou um refúgio interessante hoje, Ingrid. Ouvi dizer que Interlagos estava mais agitado que o normal." A provocação era clara em sua voz. Ele sabia sobre suas corridas. Ele a observava, assim como ela o observava.
Ingrid sentiu um arrepio. Não era medo, mas uma corrente elétrica de adrenalina. Ela sustentou seu olhar, um sorriso lento e perigoso se espalhando por seus lábios. "A vida precisa de velocidade, Renato. Caso contrário, se torna... entediante." Ela pegou sua taça, sentindo o peso reconfortante do vidro em sua mão. O líquido escuro dançava em seu interior. "Este vinho", ela disse, sua voz baixando para um sussurro que apenas ele poderia ouvir, mesmo com o burburinho da sala, "dizem que tem um final surpreendentemente amargo." Ela ergueu a taça, um brinde silencioso e desafiador.
Seu pai pigarreou, chamando a atenção de ambos. "Renato, meu filho, fico feliz que você e Ingrid estejam se conhecendo melhor. Esta aliança trará prosperidade para todos nós." Ele lançou um olhar severo para Ingrid, um lembrete silencioso de seu dever. Ingrid virou-se para sua taça. O momento havia chegado. Com um movimento calculado, ela deixou cair a pequena cápsula que havia escondido na palma da mão, observando-a dissolver-se rapidamente no vinho. Um leve tremor percorreu suas mãos enquanto ela levava a taça aos lábios. O primeiro gole foi suave, o sabor frutado familiar, mas com uma nota sutilmente diferente. Ela esperou. O olhar de Renato permaneceu fixo nela, uma expressão indecifrável em seu rosto. O que aconteceria a seguir? Seria rápido? Seria público? O salão de festas pareceu ficar mais silencioso, a atenção de todos se voltando, quase imperceptivelmente, para ela. E então, ela sentiu o primeiro sinal. Uma tontura súbita, seguida por uma onda de calor que subiu por seu corpo. Seus joelhos fraquejaram. Ela olhou para Renato, seus olhos arregalados, buscando alguma resposta ou alívio, mas encontrou apenas um brilho frio e calculista neles. Ele sabia. Ele sabia de tudo.