Último Café em Botafogo
Chapter 3 — O Sabor Amargo do Passado na Xícara Dela
O eco do grito de Helena ainda pairava no ar da "Aroma de Minas", um prenúncio de tempestade que se abateu sobre a calmaria forçada de Raquel. O cheiro de café recém-moído, antes reconfortante, agora parecia sufocante, carregado com a tensão invisível que se estendia entre ela e Ricardo. A foto que Helena jogara sobre o balcão, um recorte granulado de um homem em fuga, ainda queimava na retina de Raquel. Era ele? O Ricardo que ela amou, o homem com quem sonhou um futuro, agora parecia uma miragem, uma lembrança distorcida por cinco anos de silêncio ensurdecedor.
Ricardo, pálido, tentou reunir as palavras, mas elas pareciam presas em sua garganta. Seus olhos, antes um porto seguro, agora eram um mar revolto de culpa e desespero. Ele olhou para Raquel, e nela viu o reflexo da dor que ele mesmo causara, a confiança estilhaçada em mil pedaços. "Raquel, eu posso explicar..."
"Explicar o quê, Ricardo?" A voz de Raquel tremeu, não de medo, mas de uma raiva contida que ameaçava transbordar. Ela pegou a foto com dedos hesitantes. O homem na imagem era magro, os olhos assustados, a postura de quem corria de algo. Não era o Ricardo confiante que sempre a fizera sentir segura. "Explicar que você não é quem eu pensei que fosse? Explicar essa mulher, essa Helena, e esse acordo quebrado? Ou explicar porque você desapareceu por cinco anos e agora surge como um fantasma com mais perguntas do que respostas?"
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer palavra. Ricardo desviou o olhar, incapaz de sustentar a acusação nos olhos de Raquel. Ele apertou os punhos, a luta interna visível em cada contração de seu maxilar. "Não é tão simples, Raquel."
"Nada nunca é, não é?" Ela riu, um som seco e sem alegria. "Mas eu mereço saber. Nós tivemos um futuro planejado, Ricardo. Um futuro que você simplesmente jogou fora sem uma palavra. E agora você volta, com segredos e sombras. Quem é essa mulher na foto? O que você fez?"
Um garçom, um jovem chamado Tiago, aproximou-se timidamente, percebendo a atmosfera carregada. "Senhorita Raquel, o senhor da mesa três está perguntando se o pedido dele está a caminho. E, com licença, mas a senhora que saiu... ela parecia bem alterada."
Raquel respirou fundo, tentando se recompor. Ela era dona daquele lugar, o refúgio que construiu com suas próprias mãos. Ela não podia desmoronar ali. "Diga ao senhor da mesa três que já vai sair, Tiago. E, por favor, traga um copo d'água para mim."
Assim que Tiago se afastou, Ricardo deu um passo à frente, sua voz um sussurro urgente. "Raquel, por favor. A foto... não é o que parece. Helena está mentindo, ou pelo menos, omitindo a verdade. Ela está me forçando a fazer algo. Eu voltei por você, para te proteger."
Raquel o encarou, o coração martelando contra as costelas. Proteger? De quem? De Helena? Ou de si mesmo? A linha entre o Ricardo que ela amava e o homem que fugia na foto tornava-se cada vez mais tênue. "Proteger? Você acha que me proteger é reaparecer do nada, me encher de dúvidas e ameaças de uma mulher como aquela? Eu não entendo mais nada, Ricardo. O que você fez que te fez fugir assim? Que acordo você tem com ela? E quem é você, de verdade?"
Enquanto a pergunta pairava no ar, o sino da porta da cafeteria tocou novamente. Dessa vez, não era um grito, mas uma presença fria e calculista. Uma mulher alta, elegante e com um sorriso que não alcançava os olhos, entrou. Ela parou no meio do salão, seus olhos percorrendo o local até pousarem em Raquel e Ricardo, um brilho de satisfação perversa em seu olhar. Era Helena, com uma pasta preta em mãos.
"Parece que perdi o fim da festa", disse Helena, sua voz melódica, mas com um tom subjacente de ameaça. Ela caminhou lentamente em direção a eles, ignorando os olhares chocados dos outros clientes. "Ricardo, meu querido, eu esperava que você tivesse sido mais convincente. Mas não se preocupe, eu trouxe os documentos que você esqueceu de mencionar para a Raquel. Acho que ela vai gostar de saber sobre a sua... dívida."