Herança de Cinzas: Capítulo 1 - O Chamado da Família

Chapter 3 — O Sussurro da Víbora na Seda

O ar na sala de reuniões da Famiglia Mancini estava carregado, denso com a poeira de segredos antigos e o cheiro acre de medo. A fotografia, em tons sépia desbotados, repousava sobre a mesa de mogno polido como uma ferida aberta. Alessandro a observava com a impassividade de um homem acostumado a carregar pesos invisíveis, enquanto Salvatore grunhia, os nós dos dedos brancos de tanta força contida.

“Isso é tudo que você tem, Wanessa?”, a voz de Salvatore era um rosnado baixo, quase um sibilo. “Uma foto antiga de Alessandro almoçando com meu irmão? Isso não prova nada. Vittorio se encontrava com meio Rio de Janeiro. E você, minha sobrinha, está perdendo tempo com fantasmas em vez de lidar com os vivos que querem nos ver cair.”

Wanessa sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas manteve a postura ereta. Seus olhos azuis, antes cheios da vivacidade de uma artista, agora carregavam o peso gélido de uma líder. “Essa foto não é antiga, tio. As bordas estão frescas. E ele se encontrou com meu pai dias antes dele morrer. Em um lugar discreto. O que eles estavam discutindo, Alessandro?”, ela fixou o olhar no consigliere, buscando uma rachadura na sua fachada de pedra.

Alessandro finalmente ergueu os olhos, encontrando os de Wanessa. Não havia culpa neles, mas uma profundidade que ela não conseguia decifrar. “Vittorio era meu amigo, Wanessa. E meu chefe. Ele me pediu discrição. Estávamos discutindo assuntos delicados da Famiglia, nada que você precise se preocupar agora.”

“Assuntos delicados?”, Salvatore riu, um som áspero e sem humor. “Que tipo de assunto delicado exige o sigilo de um encontro clandestino? Se você está escondendo algo, consigliere, pode custar caro. Para você e para todos nós.”

“Eu não escondo nada”, respondeu Alessandro, sua voz firme, mas com uma nota de cansaço. “Apenas honro a confiança que Vittorio depositou em mim. Se vocês vierem com ameaças e desconfianças, talvez seja hora de eu reavaliar minha posição aqui.”

A ousadia de Alessandro a pegou de surpresa. Ele estava jogando um jogo perigoso. Um jogo que Wanessa não estava pronta para jogar ainda. Ela precisava de aliados, não de mais inimigos dentro de casa. “Ninguém está ameaçando ninguém, Alessandro. Apenas buscando a verdade. A verdade sobre a morte do meu pai. E se você sabe de algo, precisa me dizer.”

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. O tique-taque de um relógio de parede parecia amplificado, marcando o tempo que corria contra eles. Salvatore olhou de um para o outro, sua desconfiança palpável. Ele não confiava em Alessandro, e a postura defensiva do consigliere só alimentava suas suspeitas.

“Chega por hoje”, disse Salvatore, levantando-se. “Wanessa, você tem muito a aprender sobre como esta Famiglia funciona. E você, Alessandro, se estiver escondendo algo, a paciência do Corvo é curta.” Ele saiu da sala com passos pesados, deixando Wanessa e Alessandro sozinhos.

O som da porta se fechando ecoou pelo silêncio. Wanessa se aproximou da janela, observando a vista noturna de Rio de Janeiro. As luzes da cidade cintilavam como promessas e perigos. Ela se virou para Alessandro, que permanecia em seu lugar, a figura sólida e enigmática.

“Eu não te culpo pela foto, Alessandro”, disse ela, a voz mais suave agora. “Mas se você não me contar a verdade, eu vou descobri-la. E eu vou descobrir quem mandou isso.” Ela pegou a foto da mesa, olhando para o rosto de Alessandro no passado, ao lado de seu pai. Havia uma intimidade ali que ela não reconhecia. “Por que essa reunião era tão secreta?”

Alessandro suspirou, um som quase inaudível. Ele deu um passo à frente, a distância entre eles diminuindo. “Wanessa, seu pai… ele estava preocupado. Havia sussurros. Planos sendo traçados nas sombras que nem mesmo eu conseguia identificar completamente. Ele me pediu para encontrar uma pessoa. Alguém que ele confiava para obter informações externas. Informações que poderiam nos salvar.”

“Salvar de quê? De quem?”, Wanessa pressionou, sentindo o coração bater mais forte. Era a primeira vez que Alessandro oferecia uma explicação, por mais vaga que fosse.

“Eu não sei. Ele não me disse. Apenas que era vital e que deveríamos agir com a máxima discrição. Ele me deu essa foto como um registro, caso algo acontecesse. Uma prova de que eu o havia encontrado, como ele pediu.” Alessandro pegou a foto da mão dela, seus dedos roçando os dela levemente. A eletricidade era inegável, um choque sutil que a fez prender a respiração.

“Ele sabia que estava em perigo?”, ela perguntou, a voz embargada pela emoção. O rosto de seu pai, sempre tão forte e inabalável, agora parecia frágil em sua memória.

“Eu acredito que sim”, sussurrou Alessandro. Seus olhos encontraram os dela, e por um instante, Wanessa viu um reflexo de sua própria dor ali. “Ele sabia. E ele se preparou.”

A conversa, que começara com acusações, terminava em um terreno pantanoso de incerteza e dor compartilhada. Wanessa sentiu uma súbita necessidade de se afastar, de processar. A revelação de Alessandro, embora não esclarecesse tudo, abria novas frentes de investigação. Quem era a pessoa que Vittorio temia? Quem estava traçando planos nas sombras?

Enquanto ela se virava para ir, um barulho sutil vindo do corredor chamou sua atenção. Um movimento rápido, uma sombra que deslizou pela porta semiaberta. Antes que pudesse reagir, um envelope fino e branco deslizou para dentro da sala, parando a seus pés. Não havia remetente.

Com as mãos tremendo levemente, Wanessa o pegou. Era fino, contendo apenas uma única folha de papel. Ela o desdobrou. Não era uma foto, nem uma carta. Era um bilhete, escrito com uma caligrafia elegante e fria:

“A próxima vez, a foto será de você.”

O ar pareceu fugir de seus pulmões. O bilhete caiu de seus dedos trêmulos, o papel branco contrastando violentamente com o tapete escuro. Alessandro a olhou, o rosto uma máscara de preocupação repentina.

“Wanessa? O que foi?”, ele perguntou, dando um passo em sua direção. Mas ela não o ouviu. Seus olhos estavam fixos na porta por onde a sombra havia passado. A guerra não era apenas sobre o passado de seu pai. Era sobre seu futuro. E o de todos eles.