Travessia de Corações Partidos

Chapter 3 — A Sombra no Sobrenome Silva

A brisa fria da noite paulistana invadia o loft através da janela entreaberta, trazendo consigo o burburinho distante do trânsito e um cheiro sutil de chuva que se aproximava. Jéssica sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não apenas pelo frio, mas pela tensão palpável que pairava entre ela e Gustavo. A pergunta que ela havia lançado ecoava no silêncio, pesada e carregada de desconfiança. "Silva? Você tem certeza que seu nome é Gustavo Silva?"

Gustavo, que até então mantinha um sorriso cordial e a postura relaxada de um anfitrião confiante, pareceu congelar por um instante. Seus olhos azuis, antes convidativos, tornaram-se opacos, distantes. Ele a encarou por um momento que pareceu se estender por uma eternidade, sua mandíbula ligeiramente contraída.

"Sim, Jéssica. Meu nome é Gustavo Silva. Algum problema com isso?" A pergunta soou mais como uma defesa do que uma indagação. Ele deu um passo para trás, o corpo rígido, como se um golpe invisível o tivesse atingido.

Jéssica sentiu um misto de triunfo e apreensão. A confirmação era real, mas a reação dele era ainda mais suspeita. Aquele mesmo sobrenome que ela tanto evitava no Rio, o sobrenome de Samuel, agora ecoava no nome do homem por quem ela começava a sentir uma atração perigosa. "Problema? Nenhum problema. É apenas... uma coincidência interessante. Meu ex-marido também se chama Silva."

Ela observou cada microexpressão no rosto dele. Uma sombra atravessou seus olhos, fugaz, mas inegável. Ele piscou lentamente, como se estivesse tentando recuperar o controle. "Ah, entendo. São Paulo é uma cidade grande, mas às vezes as coincidências são... notáveis."

Ele forçou um sorriso, mas a artificialidade era gritante. Tentou mudar de assunto, gesticulando em direção à bancada da cozinha. "Gostaria de um café? Ou talvez um vinho? A noite parece pedir algo para aquecer."

Jéssica permaneceu imóvel, seus olhos fixos nos dele. A atração que sentia por ele lutava contra a necessidade crescente de desvendar aquele mistério. "Eu preferia saber mais sobre essa coincidência, Gustavo. Você conhece algum Samuel Silva? Talvez do Rio de Janeiro?"

O semblante de Gustavo endureceu visivelmente. Ele franziu a testa, a cautela se transformando em algo mais parecido com irritação ou, quem sabe, medo. Ele hesitou, sua voz um pouco mais baixa quando respondeu. "Não, eu não conheço ninguém com esse nome. Como eu disse, São Paulo é uma cidade grande."

A mentira foi tão mal disfarçada que Jéssica quase riu. A forma como ele desviou o olhar, a rigidez em seus ombros, tudo denunciava que ele sabia mais do que dizia. Ela decidiu jogar seu trunfo. "Curioso. Porque meu ex-marido, Samuel Silva, é advogado. E ele me disse que conhecia uma pessoa em São Paulo que compartilhava nosso sobrenome, alguém que ele tinha... assuntos pendentes."

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Gustavo a encarou, seus olhos agora faiscavam com uma intensidade alarmante. A postura relaxada desapareceu completamente, substituída por uma tensão fria e calculista. Ele deu um passo hesitante em direção a ela, e Jéssica não recuou, mas sentiu o perigo iminente. Era como se o loft, antes um refúgio acolhedor, tivesse se transformado em uma jaula.

"Você está insinuando algo, Jéssica?", ele perguntou, a voz baixa e perigosa. "Algo sobre mim e seu ex-marido?"

Jéssica encontrou seu olhar, determinada. Ela precisava saber. Precisava entender a teia que parecia se formar ao seu redor, ligando seu passado doloroso em Copacabana à sua nova vida em São Paulo. "Eu insinuei nada. Estou fazendo perguntas. E você, Gustavo Silva, parece ter todas as respostas, mas escolhe não me dar nenhuma."

De repente, o celular de Gustavo tocou, um som estridente quebrando a atmosfera carregada. Ele olhou para a tela, seu rosto mudando drasticamente. Um lampejo de pânico cruzou seus olhos antes que ele pudesse controlá-lo. Ele atendeu, sua voz abruptamente profissional. "Alô? Sim... é ele. O que aconteceu? Ele... ele já saiu?"

Jéssica o observava atentamente, cada palavra capturada em sua mente. O nome que ele proferiu em seguida a fez gelar até os ossos. "Entendo. Me diga, o que ele levou? Ele pegou a... caixa?"

O suor começou a brotar na testa de Gustavo. Ele girou o corpo, de costas para Jéssica, como se a conversa fosse algo a ser escondido. "Não, não! Isso não pode ter acontecido! Você tem certeza que ele estava sozinho? E a informação sobre o endereço... era confiável?"

Jéssica deu um passo discreto para trás, sentindo um arrepio de medo genuíno. Aquilo não era apenas uma coincidência de sobrenomes. Era algo maior, mais sombrio. Ela sentiu o olhar de Gustavo voltar para ela, e ele desligou o telefone rapidamente, virando-se com um sorriso forçado que não alcançava seus olhos. "Desculpe por isso. Um assunto de trabalho urgente. Como eu estava dizendo..."

Mas Jéssica não o ouviu. O que ela ouviu foi o nome mencionado no telefone: "Samuel". E a menção de uma "caixa". O ex-marido dela estava envolvido em algo perigoso em São Paulo? E Gustavo, com o mesmo sobrenome, era parte disso? A atração inicial deu lugar a um medo frio e avassalador. Ela olhou para Gustavo, e pela primeira vez, não viu apenas um homem atraente, mas um desconhecido envolvido em segredos que poderiam colocá-la em perigo.

O telefone de Jéssica vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem de Samuel. Um número desconhecido para ela. Relutante, ela o abriu. A mensagem dizia apenas: "Encontre-me no antigo Cais do Porto. Agora. É sobre a caixa."