Sombras de Ipê no Coração
Chapter 3 — O Perfume da Rosa Negra
O peso das palavras de Amanda no caderno de Letícia era quase palpável, um veneno silencioso que se infiltrava em cada pensamento. "Ele ainda a ama", escrito com a caligrafia elegante de sua irmã, ecoava na mente de Letícia enquanto ela observava Ricardo do lado de fora do quarto. Ele estava em pé no corredor, o olhar fixo na porta fechada, a rosa negra que havia dado a Amanda ainda em um vaso sobre a mesa de cabeceira, um símbolo sombrio e irônico de seus sentimentos.
Letícia apertou as mãos, sentindo as unhas cravarem na palma. A culpa a consumia. Ela era a irmã que deveria proteger Amanda, mas seu coração a traía, ansiando pelo homem que jurou amar sua irmã. E agora, a suspeita de Amanda pairava sobre eles, um fantasma prestes a assombrar a frágil paz que haviam construído.
"Você parece distante, Letícia."
A voz de Ricardo, baixa e rouca, a fez sobressaltar. Ele estava mais perto do que ela imaginava, os olhos escuros fixos nos dela, um turbilhão de emoções que ela não conseguia decifrar. Havia compaixão? Acusação? Ou algo mais perigoso, algo que espelhava a própria confusão dela?
"Só estou cansada, Ricardo", ela respondeu, a voz um pouco trêmula. "Cuidar dela exige muito."
Ele deu um passo à frente, o espaço entre eles diminuindo perigosamente. O perfume sutil de seu perfume, uma mistura amadeirada e levemente cítrica, envolveu-a, intensificando a vertigem que sentia sempre que ele estava perto. "Eu sei. E eu aprecio tudo o que você está fazendo. Amanda é sortuda por ter você."
A frase soou sincera, mas um fio de ironia parecia tecer em suas palavras. Sortuda? Ou presa em uma teia de mentiras e desejos não ditos? Letícia desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade do dele. "Eu apenas faço o meu dever."
"Dever\..." Ricardo repetiu, um sorriso melancólico brincando em seus lábios. "Às vezes, o dever nos leva a lugares inesperados, não é? Lugares onde os corações se perdem e se encontram de maneiras que nunca planejamos."
O coração de Letícia disparou. Ele estava falando sobre o beijo? Sobre os sentimentos que ambos tentavam desesperadamente sufocar? Ela ergueu os olhos, encontrando os dele novamente. Havia uma pergunta silenciosa ali, uma busca por confirmação ou talvez por negação. Mas antes que pudesse formar uma resposta, um leve gemido veio do quarto de Amanda.
"Preciso ir", disse Letícia, afastando-se dele com uma urgência repentina. O toque fugaz de sua mão no braço dele enviou um choque elétrico por seu corpo. Era o suficiente para fazê-la tropeçar para trás, mas ele não a segurou.
Ricardo apenas observou-a ir, a expressão indecifrável. Ele permaneceu ali por um momento, seu olhar varrendo o corredor, como se procurasse algo que só ele pudesse ver. Então, ele se virou e caminhou na direção oposta, sua figura alta desaparecendo na penumbra do hospital.
Letícia entrou no quarto, encontrando Amanda inquieta na cama. Os olhos da irmã, ainda um pouco opacos pela medicação, a encontraram. Havia uma suavidade em seu olhar que era ao mesmo tempo reconfortante e dolorosa.
"Você estava conversando com o Ricardo?", Amanda perguntou, a voz fraca, mas clara.
Letícia sentou-se na beira da cama, pegando a mão de sua irmã. Era pequena e fria. "Só estávamos falando sobre você, sobre sua recuperação."
Amanda apertou os dedos de Letícia. "Ele tem sido tão atencioso, não é? Você não acha?"
Um nó se formou na garganta de Letícia. Como ela poderia mentir para sua irmã, olhando em seus olhos tão cheios de confiança? "Sim, Amanda. Ele é. Ele a ama muito."
Amanda sorriu, um sorriso fraco que não alcançou seus olhos. "Eu sei. E eu sei que você o ama também, Letícia."
O ar pareceu fugir dos pulmões de Letícia. Ela congelou, o sangue gelando em suas veias. As palavras pairaram no ar, silenciosas e mortais. Ela olhou para Amanda, procurando um sinal de brincadeira, de engano, mas o olhar da irmã era sério, carregado de uma tristeza que Letícia nunca havia visto antes. A revelação, que ela tanto temia, parecia ter vindo não de um caderno escondido, mas de uma verdade nua e crua dita em voz alta.