Vingança em Cristal

Chapter 3 — O Sussurro do Passado no Vinho Derramado

O brilho artificial dos lustres de cristal refletia no chão polido, onde o vinho tinto se espalhava como uma mancha de sangue em seda escura. Denise manteve a compostura, mesmo com o coração martelando contra as costelas. Os olhos de Carlos estavam fixos nos dela, uma intensidade que ela não esperava, nem desejava ainda. Ele se ajoelhou, ignorando os murmúrios dos convidados mais próximos, e pegou um guardanapo para ajudar a limpar a bebida que agora manchava o tecido caro do vestido dela.

"Um pequeno acidente", disse ele, com um sorriso que não alcançava totalmente seus olhos. Havia algo ali, um lampejo de reconhecimento, talvez, ou apenas a curiosidade de um homem acostumado a ter o mundo a seus pés. "Espero que não tenha arruinado sua noite, senhorita...?"

Denise sentiu um arrepio. Era a hora. Ela precisava jogar o jogo. "Oliveira", respondeu, a voz um pouco mais firme do que esperava. "Denise Oliveira. E o senhor?"

Ele soltou uma risada baixa. "Carlos Campos. Prazer em conhecê-la, Srta. Oliveira. Embora eu preferisse que nosso primeiro encontro fosse em circunstâncias menos... molhadas."

Larissa se aproximou, o rosto uma máscara de preocupação forçada. "Carlos, querido! O que está acontecendo? Oh, Denise, que descuido! Deixe-me ajudar."

Denise afastou a mão oferecida de Larissa com um gesto sutil. "Não se preocupe, querida. Foi apenas um pequeno acidente. Carlos está sendo um cavalheiro."

Carlos se levantou, os olhos ainda presos em Denise. Havia uma tensão sutil no ar entre os dois, um campo magnético invisível que Larissa parecia incapaz de sentir, ou talvez escolhesse ignorar. "Um cavalheiro sempre ajuda uma dama em apuros", disse ele, e o duplo sentido em sua voz fez o estômago de Denise revirar. Ele sabia. De alguma forma, ele sabia que ela não era quem dizia ser. Ou talvez fosse apenas um jogo dele?

"Eu me lembro de você", Carlos disse de repente, o tom baixo, quase inaudível para Larissa, que estava ocupada demais tentando alisar o tecido manchado. "Daquela galeria de arte, há alguns meses. Você estava olhando para a escultura de bronze. Foi você, não foi?"

O sangue de Denise gelou. A galeria de arte. Uma memória intencionalmente plantada, uma isca. Ela não esperava que ele mordesse tão rápido, nem que a conectasse a um momento tão específico e aparentemente inócuo. Era a prova de que ele a observava, a procurava. Ou talvez ele apenas tivesse uma memória prodigiosa para rostos bonitos em eventos de arte.

"Não tenho certeza se o senhor me confunde com outra pessoa, Sr. Campos", respondeu Denise, forçando um sorriso polido. "Eu não frequento muitas galerias de arte. Meus interesses são um pouco mais... práticos."

Larissa finalmente se afastou, satisfeita por ter a situação sob controle. "Ora, vocês dois! Estão falando da minha convidada especial? Denise é uma amiga que fiz recentemente. Ela tem um olhar incrível para... bem, para tudo! Não é, querida?"

Carlos não tirou os olhos de Denise. "Interessante", murmurou ele, a palavra carregada de significado. Ele deu um passo na direção dela, o suficiente para que apenas ela pudesse sentir o calor de sua presença. "Talvez possamos conversar sobre esses seus interesses práticos mais tarde, Srta. Oliveira? Em um lugar mais reservado?"

Denise sentiu o perigo e a atração, um coquetel perigoso que ameaçava desestabilizar seu plano cuidadosamente construído. A vingança exigia controle, e Carlos Campos era uma variável que ela não previra tão cedo. Ela precisava dele perto, mas não assim, não agora. Ela o observou por um longo momento, o reflexo dos lustres dançando em seus olhos escuros. A escolha era dela: ceder à tentação e ao risco, ou afastá-lo e manter seu plano em andamento. Ela deu um meio sorriso. "Talvez, Sr. Campos. Mas primeiro, acho que você precisa se desculpar com sua noiva por me dar tanta atenção."

Carlos riu, um som rouco. Ele olhou para Larissa, depois de volta para Denise. "Você tem razão. Por enquanto."