O Silêncio de Jade
Chapter 3 — O Diário Empoeirado das Promessas Quebradas
O clique da fechadura ecoou no silêncio do escritório de Mariana, um som agudo e pontiagudo que perfurou a tensão acumulada. Seus dedos tremiam levemente ao puxar a gaveta. Dentro, não havia documentos ou joias, mas um pequeno diário encadernado em couro escuro, o tempo o havia deixado com um aspecto empoeirado e desgastado. Um arrepio percorreu sua espinha ao reconhecer a caligrafia de sua mãe nas primeiras páginas. A tinta desbotada parecia sussurrar segredos guardados por anos.
“Minha querida Mariana”, começava a primeira entrada, datada de anos antes da tragédia. “Hoje, seu pai me mostrou os planos para a nova linha de produtos. Seus olhos brilhavam com tanto orgulho. Tenho a sensação de que os Oliveira estão se aproximando demais, Eduardo parece um rapaz promissor, mas algo nele… um frio que não consigo decifrar.” Mariana sentiu um nó na garganta. Sua mãe, sempre intuitiva, havia sentido algo errado desde o início. Ela folheou as páginas, as anotações alternavam entre momentos de felicidade familiar e crescentes preocupações sobre os negócios com a família Oliveira. Havia descrições detalhadas de reuniões, e-mails interceptados e conversas ouvidas.
De repente, uma entrada chamou sua atenção, marcada com um asterisco e a palavra “URGENTE”. “Eduardo me procurou hoje. Disse que precisava discutir um assunto delicado com seu pai e seu pai, o Sr. Oliveira, insistiu que eu também estivesse presente. Falavam sobre um acordo, um que parecia envolver nossos ativos mais valiosos. Eduardo me olhava com uma intensidade que me deixou desconfortável. Ele ofereceu um ‘acordo de cavalheiros’, como ele chamou, para me proteger. Mas eu o recusei. Sinto que ele quer mais do que apenas negócios.” Mariana fechou os olhos, respirando fundo. As palavras de sua mãe confirmavam suas suspeitas mais sombrias. Eduardo e seu pai estavam manipulando os Bittencourt há anos.
Com as mãos ainda trêmulas, ela encontrou um envelope selado no fundo da gaveta, sem remetente. Dentro, havia um conjunto de documentos, cópias de contratos e e-mails datados de antes da ruína de sua família. Eram provas. Provas da fraude, da manipulação e da traição orquestrada pelos Oliveira. Um dos e-mails, endereçado a Eduardo por seu pai, dizia explicitamente: “O plano está em andamento. A herdade Bittencourt será nossa em breve. Certifique-se de que a filha esteja distraída com o casamento. Uma vez que a empresa esteja em nosso controle, a herdade será um mero detalhe.”
O sangue de Mariana ferveu. Era tudo o que ela precisava. A prova concreta que validava sua dor e alimentava sua sede de vingança. Ela guardou o diário e os documentos de volta na gaveta, fechando-a com um clique definitivo. Olhou para o relógio. Eram quase onze da noite. O e-mail falava da transferência de ações no dia seguinte. Ela precisava agir rápido.
Enquanto se levantava para sair do escritório, o telefone tocou abruptamente. O visor exibia um número desconhecido. Hesitante, Mariana atendeu.
“Alô?”
“Mariana?”, uma voz masculina rouca e tensa perguntou. “Sou eu, o seu tio Cláudio. Recebi um recado… sobre você precisar de ajuda. Tenho algo que pode te interessar. Algo que pode ajudar a derrubar aqueles Oliveira de uma vez por todas. Mas precisamos nos encontrar. Agora.”
Mariana congelou. Tio Cláudio? Ela não o via há anos, desde que ele se afastou da família após a morte de seus pais, alegando precisar de paz. Mas o tom em sua voz era urgente, quase desesperado. Ele sabia sobre os Oliveira. Ele tinha algo… algo que poderia acelerar sua vingança. A cautela lutava contra a necessidade. Poderia ela confiar nele? A necessidade, porém, era mais forte.
“Onde?”, Mariana perguntou, sua voz firme apesar da confusão interna.
“O antigo café da esquina, na Rua das Acácias. Estou aqui há dez minutos. Venha rápido, antes que seja tarde demais.”
A linha ficou muda. Mariana encarou o telefone por um longo momento. O mistério em torno de seu tio e a oferta repentina eram tão inesperados quanto o conteúdo da gaveta. Ela sabia que ir até lá era arriscado, mas a promessa de uma arma contra os Oliveira era tentadora demais para ignorar. Pegou as chaves do carro, o diário de sua mãe guardado na bolsa, e saiu apressada do escritório, deixando para trás a segurança de seu refúgio para mergulhar em um novo e perigoso encontro.